Eu acompanhava um amigo à banca de jornal.
Meu amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas como retorno, recebeu um tratamento rude e grosseiro.
Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, meu amigo sorriu atenciosamente e desejou ao jornaleiro um bom final de semana.
Quando nós descíamos a rua, perguntei:
- Ele sempre lhe trata com tanta grosseria?
- Sim, infelizmente é sempre assim.
- E por que você é sempre tão educado, já que ele é tão rude com você?
- Por que não quero que ele decida como eu devo agir.
Não devemos nos curvar diante de qualquer vento que sopra, nem estar à mercê do mau humor, da mesquinharia, da impaciência e da raiva dos outros. Não são os ambientes que nos transformam. Nós é que transformamos os ambientes.
Praticantes de religiões distintas tem em comum somente uma coisa: a fé. O restante é instrumentalização representada por seus rituais, divindades, visões do mundo, etc. Estes instrumentos que são procedimentos e objetos simbólicos, servem para que o praticante expresse sua fé, logo, não cabendo críticas de quem não as utiliza.
A crítica pode partir sim, de um praticante daquela mesma religião e que questiona o modus operandis de sua prática, e nunca de alguém de fora, de outra religião. Quando vemos alguém que diz pertencente de uma determinada religião criticar uma outra, podemos ter certeza que esta pessoa não sabe nem vive o sentido da fé.
Assim como é tola uma colocação como: meu deus é mais poderoso que seu deus, é igualmente tola, uma colocação como: sua religião é uma bobagem por estes e estes motivos… Pois, ao fazer esta crítica, o crítico só poderá estar criticando o modo de prática religiosa do outro e nunca, a fé do outro, que é o que interessa na prática religiosa, pois é o que nos faz alinharmo-nos com o Divino, seja ele que nome tenha.
A televisão apresentou anos atrás uma das manifestações mais imbecis de crítica religiosa já vista, que foi a de um pastor de uma igreja evangélica, chutando uma santa católica. Dizia ele ser aquilo apenas uma estátua.
Nada mais óbvio e de profunda ignorância religiosa, pois claro que os católicos sabem que aquilo é apenas uma estátua mas além de uma estátua, um símbolo sagrado que encerra em si Mistérios relativos a sua fé. Estes símbolos têm um significado na esfera profana e outra na esfera do sagrado.
Aquele que critica um símbolo sagrado, ou seja, uma representação da fé do outro, não demonstra nada além de uma insegurança em relação a sua própria fé, visto que estão no rol daqueles medíocres que para se sobressaírem e valorizarem a si mesmo e ao o que é seu, precisam tentar diminuir o outro.
É por compreender e distinguir pessoas de fé, que vemos em comunhão e caminhando lado a lado pessoas de religiões distintas, pois o que os une não são suas religiões e sim, a fé, esta demanda da alma presente em todo o humano que busca trilhar o caminho da maturidade espiritual.
Antes de criticarmos a religião alheia, pensemos que, embora prática distinta, o que este outro faz, nada mais é do que exercer sua fé, de um modo diferente do nosso mas sempre com uma mesma direção, o encontro com o Divino e com nós mesmos.
“Semeia um pensamento,
colhe um ato;
Semeia um ato,
colhe um hábito;
Semeia um hábito,
colhe um caráter;
Semeia um caráter,
colhe um destino.”
“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.”
“Não existe karma bom ou karma ruim, assim como não existe fogo bom ou fogo mau. Nós assim os classificamos conforme suas conseqüências imediatas sejam convenientes para nós ou não o sejam. Diversas vezes aquilo que chamamos de karma ruim é algo que está criando as bases de algo muito bom no futuro. É como alguém que passe fome ou seja muito perseguido e, na hora, considere isso um mau karma. No entanto, com o passar do tempo essas desditas geram uma têmpera mais forte, que virá a ser bem útil, por um tempo bastante maior.” Daí a nossa máxima: Mal é o nome que eu dou à semente do bem.
Do livro “Tratado de Yôga”, DeRose.
Amanda Sul, 26 anos, Rio de Janeiro. Jornalista, pós-graduada em Design Digital, trabalha como redatora e arquiteta da informação.
Fotografia, design, livros, filmes, discos, museus. Viagens pro meio do mato, incenso, natureza, ashtanga yoga. Comida gostosa e saudável, sorrisos, cachorros. Realizações, expansões, equilíbrios.